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Entrevista do mês de
setembro: Pausa Companhia

Esse mês o NOQUINTAL entrevistou a Pausa Companhia, que falou sobre sua proposta de pesquisa, as diferenças de seus trabalhos e o que lhes interessa como tema. Confira tudo abaixo. 


Críticas teatrais
A Pausa Companhia é formada por um grupo de atores e convida diferentes diretores a cada trabalho. Os espetáculos da companhia acabam sendo bem diferentes entre si em linguagem. Vocês trabalham isoladamente a proposta do convidado ou há um diálogo entre a dele e uma linguagem própria da companhia?

Há um diálogo sim entre as propostas dos diretores convidados e a Pausa, porque as propostas, as inquietações, sempre partem da companhia. Nossos projetos sempre começam com discussões a respeito do tema e das questões que nos interessam abordar em determinado momento. A partir daí começamos a nos aprofundar nas pesquisas, o que inclui pensar na estética e, conseqüentemente, no diretor e na equipe técnica que mais se aproximam do projeto. 

Vocês percebem a possibilidade de uma pesquisa continuada de interpretação nessa constante alteração estética?

Sempre estamos abertos e querendo experimentar as diferentes funções e desafios do nosso ofício. Os dois últimos trabalhos mostram claramente isso. Portanto a continuidade é o desafio. Na peça Febre – Um Sintoma Cênico, o mais importante era o entendimento teórico sobre aquilo que estávamos falando, a apropriação do conceito e das questões que estaríamos levantando junto com o público, propondo um debate de idéias. Isto significa que este trabalho exigia de nós uma postura que fosse além da exposição como atores, mas também como seres humanos inquietos, provocadores. Já no Mez da Grippe o papel do ator configura-se mais como criador a partir do domínio da sua técnica. Foi o que mais nos mobilizou, já que tínhamos a tarefa de dar vida às personagens. 

Os espetáculos da Pausa têm a dramaturgia como base para a criação. Em cada trabalho vocês procuram uma forma de dizer o texto ou há uma característica já firmada pela companhia?

Encaramos cada trabalho como um novo desafio, até descobrirmos qual será a melhor forma de instrumentalização para trabalhar aquele texto específico. Com certeza, individualmente, cada ator tem características específicas mais marcantes, e isso não pode se tornar uma característica do grupo. 

Com o texto em foco, como a companhia pensa o corpo em cena?

O corpo é sempre uma presença marcante. Quando assistimos a um espetáculo, por exemplo, nos interessamos pelo tema, pelo texto, mas buscamos também um corpo. Um corpo inteiro, um corpo de alguém, o nosso próprio corpo ou apenas um corpo e seus resíduos: pensamentos, pedaços, sensações.

O corpo em cena parte desse pressuposto. Aprofundar o trabalho de corpo é sempre um desafio que traz ainda mais unidade para o grupo. 

O que vocês consideram uma dramaturgia contemporânea?

O que tem comunicação com o homem de hoje, o que não quer dizer somente escrita agora. Shakespeare e Tchecov podem ser comtemporâneos ou não, depende do modo como você enxerga a obra e o modo como vai executá-la e adáptá-la. Mas a dramaturgia escrita mais recentemente traz algumas características saudáveis, como por exemplo, levantar mais questões do que dar respostas, induzir o público a tirar suas próprias conclusões, fazer a sua leitura do mundo. 

As duas últimas peças da Pausa foram inspiradas na obra de Valêncio Xavier. Febre foi dirigida por Fernando Kinas e Mez da Grippe por Moacir Chaves. Vocês poderiam comentar as diferenças das propostas estéticas e o reflexo no processo de criação?

Os dois diretores são muito diferentes, mas igualmente interessantes e instigantes. O Fernando era mais preocupado com o entendimento do conteúdo a ser encenado do que propriamente com a forma como seria dito. Ele propõe uma participação mais ativa da platéia, um teatro mais político; temos no final um espetáculo mais “racional”. Tivemos um bom período de estudos, leituras e discussões antes de ir pensar e experimentar a cena. Por outro lado, o Moacir se preocupou muito com a interpretação, a estética corporal e vocal e, nesse caso, o trabalho era focado mais especificamente na técnica do ator: voz e corpo, gestos e ações. São duas linhas de direção bem diferentes que nos provocaram muito, como sempre buscamos – e temos certeza de que as próximas experiências também o farão. 

Esses dois trabalhos são com um autor radicado em Curitiba que fala sobre um fato histórico local. Nas peças anteriores, já houve uma preocupação por parte de vocês em fazer um teatro que expressasse uma identidade curitibana ou falasse algo sobre a cidade?

Não. Não escolhemos o Valêncio Xavier por ser um autor radicado em Curitiba, mas porque ele nos fazia pensar o mundo e a nossa relação com ele. Não temos necessidade de montar algo específico sobre a cidade ou sobre as pessoas que aqui habitam; a nossa necessidade é de discutir o mundo em que vivemos, seja através de temas como a violência, a política ou as relações; enfim, tudo o que nele está inserido. O que fizemos, nos dois últimos espetáculos é usar um texto que parte da nossa cidade para fazermos paralelos com a realidade aqui e lá fora. 

A variação da linguagem instiga curiosidade nos pesquisadores de teatro que sempre querem assistir o último e diferente espetáculo da companhia. Como vocês percebem o interesse do público em geral em procurar a Pausa?

Acho que o grande interesse do público em nosso trabalho vem da eterna inquietação do grupo e da vontade de discutir, levantar questões sobre nós mesmos – e que representam, de alguma forma, as inquietações do homem contemporâneo. A platéia muitas vezes se identifica com os problemas levantados, com os personagens, com as angústias. A nossa função, como artistas, não é ter a pretensão de dar respostas certas, mas sim ousar, experimentar, buscar novos desafios; sempre com o intuito de levantar questões e propor um espaço coletivo onde surjam problematizações importantes. 

E, como de praxe, gostaria que vocês finalizassem falando dos próximos passos da Pausa Companhia.

A Pausa deve voltar mais uma vez em cartaz com o espetáculo Menos Emergências. Além de ser um trabalho que continuamos interessados em aprimorar, ele nos oferece a possibilidade de trocar os papéis que os atores fazem, ampliando ainda mais o desafio. Depois, iniciamos um trabalho de pesquisa, um estudo voltado para a perspectiva de esboçar uma dramaturgia feita de colagens, mais ou menos como foi feito em Febre, pelo diretor Fernando Kinas. Também estamos trabalhando na tradução de um texto novo; a partir daí vamos experimentar leituras e definir a próxima montagem da companhia.

 
  » Arquivo de entrevistas:
 
Pausa - companhia
Paulo Biscaia - diretor
Nina Rosa - diretora
Luiz Felipe Leprevost - ator e dramaturgo
Maikon K. - ator
Andrei Moscheto - ator e diretor
Cândida Monte - atriz e diretora
Sueli Araújo - diretora
Márcio Mattana - ator e diretor
 

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